Bom, dando seguimento a um antigo
projeto, lanço um texto-conto-viagem que escrevi há um certo tempo e que chegou ate a ser ilustrado por
Ecristio( perdoe se a grafia não for essa) dos
Macabéicos.
Espero que gostem!
A colméia e a vida privada!
Capítulo I
O telefone tocou, e seu barulho mais parecia com os gritos de almas desesperadas que buscam chamar atenção de anjos, mas ali naquela cama não havia um anjo. Jazia um homem que, cambaleando como um zumbi caminhou até o infernal
objeto enquanto praguejava contra tudo e todos.
Atendeu com uma voz quase inexistente:
-Alô!
A voz do outro lado da linha era familiar e como sempre penetrou seus ouvidos com força bruta como se rompesse o tímpano e atingisse
diretamente o cérebro. Ficou sobre os dois pés, ficou rígido como quem acaba de tomar uma
ducha de água gelada e disse apenas:
-Sim... Não... Conheço...
Ok!
Ao desligar o telefone ele proferiu alguns palavrões e dirigiu-se ao banheiro para um banho. Isso realmente o incomodava. Acordar a essa hora da manhã não estava em seus planos, mas ser acordado e ter que se banhar estava ainda mais distante dos seus desejos matinas. Logo ele percebeu os auspícios de um péssimo dia.
Ao sair do banheiro, comeu um resto de sanduíche que guardou estrategicamente junto com uma cerveja, espólios da noite anterior. Saiu de casa e logo recebeu os primeiros raios solares naquela cara de defunto. Irritou-se com o calor e com tudo mais que o incomodava. Andar, mendigos, carros, barulho de trânsito, pessoas nas calçadas. Por sorte seu destino ficava próximo.
Ao chegar ao “oásis de todo canalha”, um bar, sentiu-se aliviado. A música agradava, Tom
Waits cantava
The Heart of Saturday Nigth, embora fosse terça-feira. A pouca conversa o agradava, e principalmente a ideia de beber algo agradava. Algo gelado para aliviar o calor, gelado e adocicado:
Gin fizz, a pedida ideal. Acendeu um cigarro enquanto sentava e acenou para o
garçom.
Aquele ambiente era extremamente agradável, fumaça de cigarros, risos, pessoas felizes, outras fingindo certa melancolia, música, a bebida poderia ser mais
Gin e menos “
fizz”, mas tudo bem.
Sua paz teve fim quando a dona da voz entrou no bar e fitou o ambiente com olhares furtivos e determinados a encontrá-lo. Ele estremeceu.
Estava linda, mesmo na simplicidade de uma blusa branca e calça
jeans bem gasta com um “rabo de cavalo” que deixava suas feições fortes tão amostra quanto sua notória ira!
Ao vê-lo seguiu a passos longos até a mesa e sem dizer uma palavra, sentou.
O
garçom cumpriu seu papel e ela pediu um “
bitter”. Então, olhou para ele e disse:
-Onde você estava ontem à noite?
-Não te devo satisfações, respondeu ele olhando o cinzeiro.
-Então porque disse que iria?
-
Digo e prometo muitas coisas, cumpri-las sempre foi o meu defeito e você mais que ninguém sabe disso.
-Sei muito sobre você realmente e aposto que estava em algum bordel enchendo a cara. Ora, alguém como você já deve conhecer todos os bordeis dessa cidade!
-Todos é um exagero seu, mas boa parte eu conheço sim!
-Você é um porco!
-Eu também te adoro!
-Cínico! Ela disse com voz forte e calou-se por alguns instantes.
Ele quebrou o silêncio após um gole de
Gin:
-Me acordou só para me ofender?
-Por que você é assim?Indagou com a voz
trêmula que precede o choro de frustração típico de mulheres que lutam em mudar a conduta do homem amado!
-Defina “assim”! Respondeu ele com a ironia típica de homens que, embora não amem nunca, sentem uma enorme necessidade de serem amados.
-Você é ao mesmo tempo o pior é o melhor dos homens, em momentos divergentes claro!
A conversa tomava então um ar de descaso e apresentava-se ali o início corriqueiro do jogo Sarcasmo X Verdade.
-Enfim um elogio!Posso dizer que ganhei meu dia!
-Para com isso! Eu tinha que te procurar, tinha que te encontrar, tinha que reviver isso tudo novamente para fazer esse inferno em minha mente? Eu devo ser muito idiota mesmo!
-Achei que gostou de saber sobre a publicação do meu livro,
-Queria saber como você estava. Pensei que todo esse tempo tivesse servido para seu amadurecimento, mas vejo que me enganei.
-Ah, você e seu eterno excesso de expectativas!Vejo que não mudou nada também!
-Quando você vai crescer?
Diga, quando é que vai perceber que a vida é muito mais que madrugadas inteiras de
porres e orgias? Ou vai passar o resto da vida como suas personagens?
-Não fale assim! Esquece que foram elas que me trouxeram você?
-Era diferente!
-Então ainda é!
-Não, não é mais. Foi. Entende? Você não me faria feliz hoje!
-E você é feliz hoje?
-Sim, sou!
-Não é o que parece!
-Nada é o que parece! Veja você, por exemplo!
-Ah, logo você que nunca me entendeu por completo, se acha capaz de tirar conclusões sobre minha autenticidade?
-Eu te amei!Isso me isenta da parte do “entender por completo”
-Eu ainda te amo!
-É e sempre foi uma mentira!
-Eu sou uma mentira segundo você! Não estou pedindo que acredite, só constatando!
Ela então se cala e acende um cigarro.Seu pensamento divaga sobre as varias formas de tentar expor a sua ira pelo “cano” da noite passada, mas está confusa.Como quem organiza um argumento ela traga o cigarro e solta a fumaça para cima olhando para o
teto e tão logo acha uma ordem que sintetize o início, vira-se para ele com um olhar
ferino como quem tenta ofender e diz:
-Você deve concordar, deve achar o mesmo. Não pode se considerar
crível e por isso vive essa torpe verdade, cambaleando a cada dia numa embriagues moral, percorrendo insalubres caminhos tortuosos de
luxúrias e
vagabundagens e tudo isso para transpor em seus textos, nas suas personagens, seus mais podres e imundos desejos e experiências!
-Continue, suas palavras estão me dando tesão! Acho que isso que eles chamam na psicanálise de “
Erotisar a relação com o analista”.
-Filho da
puta!
Disse ela, rindo do descaso e falta de seriedade.
-Era assim que você me chamava quando estava gozando lembra?
-Eu fingi todos os orgasmos!
Ele olha para ela com uma cara de quem está próximo a explodir de risos, traga violentamente o cigarro e soltando a fumaça diz:
-Problema seu!
Percebendo que sua tentativa de feri-lo no âmago de todo cafajeste, o sexo, foi quase um “tiro no pé”, ela diz:
-Vou sair, pois não há o que fazer aqui! Nada vai mudar. Pensei que esse tempo fosse suficiente para você perceber que esteve errado, mas vejo que continua o mesmo.
-Se o tempo mudasse algo você não teria me procurado
mon amour!!
-Por favor, não confunda as coisas...
Interrompida por um aceno, ela cala-se ao sentir a mão dele sobre a sua. Olha e sente um calafrio percorre-lhe o baixo ventre e um leve
formigamento nos pés, num misto de susto e desprezo.
Então ele diz:
-Só conheço duas formas de acabar com essa situação. A primeira é você usar suas palavras
enfloradas e adquiridas do seu mais novo livro de auto-ajuda para me ofender e depois de satisfeita jurar mais uma vez não me procurar. A outra que eu considero bem mais aprazível, é sairmos daqui e irmos
direto para minha casa aqui perto e verificar se algo mudou de verdade entre a gente.
Ela sem conseguir esconder o sorriso diz:
-Vá chamar um táxi, eu pago a conta!
Capítulo II
Não havia nada de novo, nada havia mudado, era simplesmente mais do mesmo e ambos sabiam disso. Não há o que se esperar em um relacionamento onde o produto final é puramente satisfação, não necessariamente mútua.
Após entrarem na casa, ali mesmo na pequena e suja sala eles já se entregavam àquela sensação estranha e quase indizível de quando se espera por algo que já se conhece bem e que já se sabe que não trará contentamento, porém, deseja-se como algo vital a existência.
A compulsão pela obviedade daquele momento queimava as faces e fazia ferver aqueles corações que esqueciam de pudores nesses momentos.
Ela já sabia onde e quando ele ia tocar, como ele iria morde-lhe as orelhas e pescoço e como iria elogiar suas formas, como seu ritmo - e isso lhe agradava - de penetrações obedeceria a uma crescente até o momento final, mas mesmo assim, isso lhe era extremamente necessário.
Ele por sua vez, sabia que seria acariciado de forma branda no início e tão logo a penetrasse, teria as costas marcadas por unhas e os ombros castigados por dentes afiados, sabia em que posição ela atingiria o “fingido” orgasmo e mesmo assim ansiava por isso incontrolavelmente.
No final, seriam apenas dois corpos inertes e suados, cada um ao seu lado da velha cama e com uma sensação de “prato sujo após um banquete”.
Nada havia mudado, nem mesmo o hábito dele de deixar os cigarros há certa distância, como álibi para sair da cama e evitar os acalantos pós-coito, nem mesmo a sutil necessidade dela de permanecer abraçada a alguém que não te dedica nem de longe, tamanha proteção.
-Traz um pra mim também...
-Certo! Mais alguma coisa, tipo, água? É só o que posso te oferecer no momento. Mas posso pedir alguma coisa encaixotada e insossa pelo telefone.
-Não, um cigarro e nada mais.
Ao retornar, já fumando e empunhando o cinzeiro ele sentou-se na cama ao lado daquele corpo perfeito e sentiu o "cheiro morno" de sexo que dominava o local.
Ela ergueu-se e sem pudores não se cobriu. Encheu o peito de ar, como quem pretende tomar coragem para revelar algum segredo e olhou para ele. Antes mesmo que ele notasse tal movimento ela disse:
-Eu menti sobre fingir os orgasmos. Você é um dos poucos homens que me fazem chegar a esse momento e é por isso que eu te odeio tanto.
-Eu também menti sobre ainda te amar. O que sinto é um tesão enorme em você e talvez um pouco de carinho e admiração, mas isso ainda me é muito confuso.
-Acho que sabíamos disso. Eu tentei te ferir e você tentou me exaltar, mas sabíamos que era pura mentira. Alias, mesmo os momentos bons que tivemos no passado, hoje me parecem mentiras, sei lá, um sonho ou uma história bem elaborada.
Ele deu uma pausa, lembrou de uma teoria meio louca que ouviu de um amigo sobre o papo que sempre ocorre depois de uma trepada com mulheres que de alguma forma sentem-se feridas ao final da entrega. Dizia que durante o orgasmo, o corpo do homem é bombardeado por hormônios de satisfação e de euforia que nenhuma cocaína nem outra droga podem oferecer e que após tudo isso sofre de uma crise de abstinência instantânea, deixando-o pacato como uma lebre e carente como um cão solitário. Sendo assim, nunca é interessante aprofundar qualquer conversa com alguma mulher que queira descobrir o que de mais secreto se esconde por baixo da carapaça de cuidados e recalques que recobrem a alma quando estiver nesse estágio físico. O correto mesmo é um bom banho frio e só depois que o nível de testosterona atingir seu apogeu, retomar qualquer divagação.
-Eu vou tomar um banho, você me acompanha?
Capítulo III
Durante o banho solitário ele lembrou que precisava manter contato com o editor, havia um compromisso em uma livraria renomada com um monte de gente chata, alguns jornalistas de cadernos culturais de jornais de baixa representatividade, enfim, um circo armado pela editora para seu espetáculo. Isso deixou confuso sobre como agir. Ele havia sugerido um clube, onde tocariam as bandas de rock ‘ n roll de velhos amigos (ênfase em velhos) e onde poderia reunir aqueles que se identificariam com seus textos, mas o “fresco” disse que isso não atrairia o público alvo. “Roqueiros não compram livros, ou eles roubam de bibliotecas ou pedem emprestado, nos precisamos de dinheiro entende?” Na saída, olhou seu reflexo no espelho do banheiro e sorrindo disse, “Bem vindo ao mundo Business meu caro!”
Ao retornar, ela estava já vestida e composta, retocava apenas a maquiagem com a ajuda de um minúsculo espelho do estojo de batom.
-Não vai tomar banho?
-Ao contrario de você não tenho nojo das nossas relações, gosto do cheiro que fica em mim, levo-o como lembrança. Sabe? Uma lembrança que dura exatamente o tempo que leva para ele desaparecer pelo ar. Disse essa última frase sorrindo maleficamente.
-Amanhã ainda se lembrará! Não se esquece essas coisas.
-Eu sei, mas lembrarei também do quanto você é podre, e isso fará abstrair as boas lembranças. É um páreo bem fácil esse. Hehehehehe!
Caminhou em sua direção retirando a toalha e deixando a mostra o efeito dessas palavras arredias sobre sua libido. E puxando-a pelos cabelos fez com que se ajoelhasse e o chupasse.
Ela ate tentou mostrar alguma resistência - afinal, fazia parte da cena - mas de joelhos, ela fez o que deveria ser feito e como deveria ser feito. Enquanto o chupava, despia-se rapidamente ao som de palavras obscenas e xingamentos que em outro momento fariam com que ela queimasse em cólera, mas que por hora soavam-lhe como um fole a reavivar a brasa de uma lareira.
Em seguida ela ficou de pé para tirar a calça enquanto ele beijava seus seios e apertava-lhe a bunda com uma força descabida. Calça e calcinha no chão ele a empurrou na cama e a penetrou novamente.
A coisa toda aconteceu como uma dessas danças da era feudal, seguindo os passos marcados pela sinfonia, seguindo cada um dos atos até o, embora previsível, final glorioso.
Ao sair ela despediu-se com um beijo, um breve abraço e um esboço de lágrima. Nada mais que pequenos gestos condicionados à boa educação e às formalidades. Sabia que breve estaria a cruzar aquela porta novamente.
Ele por sua vez, voltou à cama com um cigarro entre os dedos ficou a admirar os desenhos lisérgicos da fumaça pelo quarto. Aproveitando a claridade que entrava pela janela, pegou um livro qualquer e leu algumas linhas....
De repente ele lembrou de algo que preferia ter esquecido. O tal evento, a roupa que deveria usar e como deveria se portar. Era uma novidade para ele, então deveria falar com quem entendia do assunto.
-Alô!
-Alô, quem é!?
-Sou eu, sua mais nova fonte de renda!
-Gracinha! Piadista nato! Diga, o que quer?
-É sobre o evento da tarde. Não tenho roupas adeqüadas para tal ocasião. Sinto-me nervoso em saber que terei que comungar com gente chata. Inclua-se no “gente chata”.
O que você pode fazer por mim?
-Alugar-lhe um terno ou algo que vossa senhoria grotesca se sinta bem e vistoso. Quanto ao nervosismo, temos um remédio que pelo que sei te agrada bastante.
-Qual o remédio?
-Cocaína meu bem, a solução para todos os males! Que me diz?
-Ok. Preciso dormir agora. Antes das 16:00 Horas estarei lá. Não esqueça o traje.
-Não quer experimentar antes querido?
-Se é você quem vai escolher, eu não irei gostar de nada, sendo assim, o que me trouxer eu visto!
-Olhe não me de idéias!
-Não, eu sei que você tem uma enorme estima pelos seus dentes. Não trará nada de esdrúxulo. Até mais, e vê se pelo menos na cocaína você capricha certo?
-Té mais querido!
Tão logo desligou o telefone, deixou-se cair na cama que cheirava a uma mescla de sexo, suor, mofo e cigarros. Absorto em pensamentos vagos que rodeiam o início do sono, não percebeu que um dos cigarros ainda aceso caíra do cinzeiro sobre a velha madeira do criado-mudo. Mas não ocorreu incêndio, pois o cigarro apagou-se por si só queimando levemente a superfície do objeto. Apenas mais uma marca para demonstrá-lo o quão urgente era necessário mudar os moveis desse quarto.
Capítulo IV
Alias, se observarmos direito, nada ali pode ser considerado novo. Seu armário, roupas, sapatos, livros, cama, até ele mesmo precisava modificar-se. Talvez cortar os cabelos, fazer a barba e corta as unhas também.
A verdade é que tudo isso para ele era trabalhoso demais. Havia algum tempo que esquecera o real significado de motivação. Vivia cada dia como se fosse único, e sendo assim, planejava muito pouco.
Até mesmo o lançamento do seu livro fora obra do acaso. Não fosse Marcos, o editor afetado e um velho conhecido da faculdade, ter enxergado nele uma boa oportunidade de faturar alguns vinténs, ele continuaria a publicar mensalmente suas crônicas num jornaleco de um outro amigo antigo que lhe cedera esse espaço por também apreciar seus textos desde o tempo da faculdade. Escrevia sempre, para passar o tempo, para se expor nos seus textos e às vezes por simples diversão, criava contos e narrativas, poemas e manifestos que abarrotavam seus cadernos.
Afora isso, vivia sua rotina de funcionário público, esperando apenas o badalar das 18:00 de toda sexta feira para adquirir a temporária “carta de alforria”. E dali mesmo da repartição, seguia seu roteiro que incluía sempre bares, casa de streppers, lugares freqüentados por toda sorte de desgraçados, bordeis, bares. Sua paixão pela boêmia e ainda mais pelo álcool e drogas havia afastado todos os amigos de infância, que há essa altura da vida já compunham famílias honradas e distintas na sociedade.
Ele não. Não cria na família, na honradez de um status social, muito menos no futuro.
Seus vícios e caprichos lhe roubavam boa parte do ordenado. Tinha um corpo esguio e frágil e embora raramente adoecesse, tinha uma feição de doente, talvez pelo constante mau humor.
Sua irmã mais velha tentara ajudá-lo certa vez e sugeriu uma clínica de recuperação. Foi o fim de uma boa relação. A mãe, que no passado herdara a fortuna do pai- esse morto, quando ele ainda era um infante em um acidente numa das oficinas da Rede Férrea Federal- tão logo conheceu o poder do dinheiro, passou de boa mãe para mulher de negócios e deixou de lado os machucados e arranhões da criança levada para se preocupar com os inquilinos devedores das suas inúmeras propriedades alugadas.
Cresceu só, independente. Aprendendo com livros e com músicas. Com amigos na escola, a malandragem, com mulheres e suas inúmeras paixões, o valor do desprezo.
Até que ele conheceu Cristiane, mulher que outrora estivera em sua casa. Ali sim, se apaixonou verdadeiramente por algo e quis mudar. Quis ser diferente. Já havia amado, já havia sofrido. Conhecia de cor as etapas de um relacionamento, pois sempre fora muito intenso, mesmo antes dela.
Mas ela despertou nele um sentimento novo, como se refrigerasse sua alma, como se ela fosse o ápice dos seus desejos.
E citando Anaïs Nin, em uma vez em que se esbarraram nos corredores da faculdade de jornalismo ele disse:
-Você é uma das poucas pessoas que conseguem agradar minha exigente imaginação.
Ela riu, mas agradada pelo galanteio, decidiu dar vazão ao intrépido colega.
Naquela época ele ainda era um rapaz apresentável, conhecido por todos na faculdade por seus discursos arredios contra o sistema educacional e mais ainda por suas críticas nos jornais do grêmio estudantil. Sempre irônico, sarcástico, sempre bem humorado, era de fato uma criatura cativante. Ainda fazia uma espécie de folhetim onde traçava contos e publicava crônicas que ganharam notoriedade até mesmo em outras universidades e nesses encontros de estudantes. Foi impossível para ela resistir aos seus encantos. Porém se para ela era uma coisa branda, ele encarava de forma diferente.
Via realmente um futuro, conseguia enxergar além, e lá ela sempre estava presente. Não que tivesse mudado o modo de pensar sobre não ter filhos ou não casar-se, mas queria tê-la ao seu lado para o resto da vida. Ledo engano. Ao final de três semestres juntos, ela decidiu simples e egoisticamente acabar com a relação alegando desgaste.
Desgaste, até hoje essa palavra não cabe em sua lógica. Sabia que ela era apaixonada por ele, sabia que ninguém mais poderia fazê-la feliz como ele faria, mas ela irredutível não aceitava a reconciliação.
Deu-se então o inicio da auto-flagelação. Se antes sua vida era como um horizonte com vista para o mar com coqueiros dançantes, agora tornava-se uma caixa claustrofóbica de medos e angustias.Álcool, drogas, revoltas,desprezo pelo correto e pelo justo, voltava às origens. Ela ainda tentou mudar a situação, dizendo que isso não a traria de volta.
-E quem disse que é isso que eu quero! Eu quero a sua distância mulher vil!Você apunhalou meus sonhos pelas costas. Não há mais como acreditar em você!
Uma vez, aproveitando do bom relacionamento com as pessoas envolvidas na rádio estudantil, entrou no estúdio e em alto e bom som, recitou “Do que me disseste”! Dedicando em “negrito” a ela, Cristiane.
Era para ele muito confuso esse término repentino. Muito mais lhe parecia uma amputação. Era tão dedicado a essa mulher que se caso fosse necessário, esvaziaria todo o seu corpo para doar-lhe o sangue que corria nas veias sem pensar duas vezes. Por outro lado, para ela era justamente essa a questão que atrapalhava.
Descobrir que aquele homem, sujo, audaz, sarcástico e inteligente tinha um lado doce e carinhoso fora no início delicioso. Todavia, com o passar dos meses, essas características foram crescendo a ponto de sufocar todo o resto.
Sarcástico para o mundo, compreensivo para ela. Audaz para o mundo, pragmático para ela. Essa mudança brusca, essa descaracterização repentina foi massacrando o que ela mais admirava nele. Restou apenas o sexo e a boa companhia, pouco demais para manter uma relação. Ela amava o bêbado safado, o sátiro, o puto, o sórdido. Se fosse para amar um almofadinha ela teria se envolvido com alguém do curso de física.
Outras pessoas vieram, mas nunca deixaram de se encontrar. Esses encontros eram sempre cercados de violência verbal e sexo. Esbarravam-se em algum ponto da cidade. Ele quase sempre a procurava e fingia ser obra do acaso. Ela o evitava e fingia ser uma coisa natural.
Por fim, num anúncio de um auto-falante que atormentava o centro da cidade- uma espécie de rádio difusora de comerciais patéticos de empreendedores falidos, dessas que lêem jornais para os transeuntes- ela ouviu nome, data e local onde aconteceria o lançamento do seu livro, e revirando uma a agenda resolveu ligar para dar-lhe parabéns.
Bom, é sabido de todos que nenhuma mulher que tem na sua consciência a certeza de que marcou a vida de um homem, que o afetou de alguma forma, liga para ele somente para dar parabéns ou por mera formalidade. Há nelas uma espécie de instinto invejoso doentio, querem estar ausentes na desgraça para não carregarem o fardo do mal que causaram, mas sentem-se a vontade em marcar presença na glória, querem na verdade fazer parte dela.
-Alô!
-Quem é?
-Sou eu, Cristiane - ela iniciou seu discurso como um condenado que profere palavras de isenção antes da pena, rápido e sem pausas - ouvi um anúncio sobre seu livro, pensei em te ligar, se fiz mal mil perdões mas.... Parabéns!
-Todo esse tempo sem contato e você me vem com parabéns Cristiane? Ok! Obrigado!Mais alguma coisa?
-Não sei, talvez... Você não quer me encontrar na segunda após o seu expediente no Café XXXXXX
-Tem algo além de café por lá? Tipo, cervejas?
-Tem sim. Você vai?Ficaria bem feliz em te ver!
-Serio? Legal. Vou sim!
Aqui abrimos espaço para falar sobre a perversidade vingativa dos homens feridos. Era fato que ele não iria, nem mesmo cogitava a idéia de ir até um Café encontrar seu grande desafeto amoroso, mas ainda assim ele respondeu que sim. Talvez pela certeza que o “cano” iria causar imensa raiva e ele sabia bem que era melhor lidar com ela enfurecida do que cheia de amores.
Alias mulheres enfurecidas nunca sabem bem o que querem. Um deslize no argumento e bingo, acha-se a deixa para transformar sua ira em insegurança. Sabia que se faltasse, ela o procuraria “puta da vida” e que assim ficaria mais fácil convencê-la de que tudo que restou foi o sexo e que esse sim, continuava o mesmo.
E assim o fez. Tomou um ônibus na direção contraria a do Café XXXXX e foi ter com as putas e com os companheiros de bar no subúrbio após o expediente. Plano bem executado, fim de noite sem se preocupar com horários, pois havia pedido licença da repartição para o evento. Ganhou mais três dias do seu superior que se orgulhava de ter uma “celebridade” entre os subordinados.
Todo o resto nos já conhecemos bem.
Capítulo V
O telefone voltou a acordá-lo, mas dessa vez ele até agradeceu, pois escapava de um pesadelo. Esse sonho desafortunado e recorrente lhe perseguia desde a adolescência. Via-se correndo de encontro a um humanóide feito de luz e sombras, como se o fizesse frente a um espelho e por mais que quisesse alcançar, por mais que buscasse mais velocidade, aquilo permanecia a meia distância a imitar seus movimentos enquanto vozes estranhas diziam frases desconexas e palavras de repúdio.
De súbito, levantou e caminhou até o aparelho que ainda tocava.
-Quem é?
-Sou eu cara, Pablo! Tudo bem?
-Desde quando meu bem estar faz arte de suas preocupações meu caro? E onde conseguiu meu número?
-Opa, desculpa, mas estou precisando de uma ajuda aqui com um processo e fui informado de que você está a par. Quanto ao telefone, peguei no RH.
-Eu estou de licença, a Catarina não te falou isso também não?
-É ela disse sim, e disse que você iria se aborrecer caso eu ligasse, mas foi preciso.
-E que parte de “aborrecer” você não entendeu?
-Olha, acontece que o....
-Qual o processo?
-Aquele caso de um senhor que pede uma revisão nos seus limites consignatórios. Emanuel Jarbas de Souza se não me engano.
-Volte a ligar quando souber de fato o que quer!
-Espere, você pode me ajudar ou não!
-Tá, o que quer?
-Entenda, ele precisa desses documentos prontos até amanhã, seja lá qual for o resultado da solicitação. Mas eu não sei bem como agir.
-Olha, esse caso é muito simples. Libere mais 15% no limite de consignações. Esse senhor esta querendo conseguir um empréstimo e me atormenta com petições há alguns meses. Diga que é o máximo que podemos fazer dentro da Lei nesse caso e comunique ao setor responsável. Quanto ao resto, você sabe como fazer. Pode pedir ao Matias para assinar e dizer que fui eu quem te orientou. Qualquer coisa ele me liga até umas.... Que horas são?
-14:00 horas!
-Ok, ele tem então até as 15:00 para me ligar, certo?
-Certo. Boa sorte lá no evento!
-Foda-se!
Desligou o telefone com certa brutalidade, primeiro por ser incomodado com questões do trabalho num dia em que não imaginou nem se quer pensar nisso, segundo por que esse tal Pablo é um colega de trabalho (digo colega porque não acho outra palavra que se enquadre aqui, mas ressalvo que nem colegas eles são de fato) que logo soube do seu livro, iniciou um processo forçado de aproximação, o que lhe trouxe certos aborrecimentos.
Sentiu a barriga doer. Deveria ser fome, ou uma gastrite nervosa. Resolveu sair e comer alguma coisa.
A lanchonete não ficava longe, alguns minutos para chegar lá, comer, comprar cigarros retornar e tomar um banho. Assim o fez.
Em casa, enquanto vestia sua velha calça jeans e uma blusa preta ele voltou a pensar em como seria na livraria. Imaginava algumas respostas para as perguntas mais obvias e para outras que ele tentava presumir que algum jornalista mais inteligente pudesse fazer.
Abstraiu tudo num grande “foda-se mental” enquanto trancava a porta por fora e seguiu a caminho do ponto de ônibus. Odiava ônibus, gostava mesmo era de andar, mas chegar suado e fora do horário seria muito ruim. Também não sabia se na livraria teria um banheiro, então preferiu não arriscar ficar “visgando” com o suor em roupas limpas.
Sentou-se junto à janela e fixou os olhos nas portas de lojas e casas que passavam em ritmos diferentes a depender da distância entre um ponto e outro como sempre fazia. Isso para ele era uma forma de dizer aos outros que ali não estava alguém que queria conversa e que ,”por favor, não me venha com papinhos bestas sobre o clima ou política para passar o tempo”
Para sua sorte, ninguém resolveu sentar ao seu lado ou puxar conversa, era meio de tarde e os ônibus ficam vazios nesses horários. Logo chegou seu local de desembarque e ele desceu.
Foi saudado pelo afetado e sabia que ali começaria seu inferno mental. Logo entrou e foi apresentado ao proprietário e a sua digníssima esposa, uma mulher estranha, dessas que para parecerem mais ricas do que são, usam roupas ridículas e penteados engraçados.
Apresentações, tapinhas nas costas, sorrisos (que lhe soavam como o som de maquinas registradoras) beijinhos nos rostos e estava tudo certo. Dali em diante era só fingir estar contente.
-E então meu querido, vamos às provas? Falou Marcos enquanto puxava-o discretamente para o corredor que dava acesso ao escritório, gentilmente cedido pelo proprietário para servir de camarim.
-Você trouxe a cocaína? Perguntou quando havia distância suficiente entre eles e o casal burguês-metido-a-ricos.
-Ora meu amigo, eu nunca falho. Mas para que a pressa?
-Estou nervoso, preciso me concentrar se não gaguejarei e seu circo, por assim dizer, terá a lona incendiada.
-Tá, deixe eu te mostrar o que trouxe para vestir enquanto faço os preparativos.
-Sei que parece estúpido, mas pode fumar aqui?
-Não.
-Merda!
-Entre!
Marcos então abriu a porta do escritório e eles entraram.
Após vestir duas das três peças que Marcos trouxe, ele escolheu algo que te agradou. Uma blusa simples, sem nhenhenhens, uma calça distinta e “sapatos de homem” como ele resolveu chamar após ver os outros dois pares que lhe foram apresentados.
Tudo aprontado, eis que lhe surge à frente uma bandeja de inox com algumas linhas generosas de pó.
Marcos já estava sob efeito quando lhe passou o canudo e ele fez uma cara de contentamento após duas fungadas.
-Preciso beber algo Marcos!
-Tem cerveja no frigobar e Wisk logo ali.
-Whisky é mijo de cavalo escocês que vocês pagam caro só pela garrafa!
-Ta, bebe a cerveja então seu proletariado.
Abriu uma long neck de uma boa marca e de um gole só tragou metade do conteúdo soltando um “belo” arroto em seguida.
-Bom, pelo barulho lá fora, deduzo que alguns dos nossos convidados já chegaram. Vamos querido?
-Não, mais uma cerveja, vou sair pelos fundos... Há saída pelos fundos aqui? Preciso fumar um cigarro!
-Meu Deus, nada te contenta. Ta chapado, vai ficar bêbado e fedendo a esses malditos cigarros. Quero te apresentar algumas mulheres que, com a sua fama futura e momentânea, arrastarão caminhões para dormir com você!
Falava isso enquanto fazia os tiques típicos de quem quer que todos saibam que você cheirou pó. Coçava o nariz, gesticulava e no caso dele ainda mais que o normal, e fazia caras e bocas.
-É só um cigarro, vá e crie um clima de suspense. Eu retorno em 5 ou 6 minutos! Apanhou mais uma cerveja e seguiu na direção indicada por Marcos até a porta dos fundos ,que só abria por dentro, mas quando ele descobriu já era tarde demais.
Após um chute na porta e um xingamento por telepatia que ofenderia toda a árvore genealógica do fresco, ele acendeu o cigarro e fumou sem pensar em nada. Estava agitado, estava tenso, porém confortavelmente entorpecido pelo pó.
Deu a volta no quarteirão e entrou novamente pela porta da frente fazendo com que todos virassem em sua direção.
O dono da livraria disse em voz alta:
-Além de escritor é também mágico! Um talento e tanto!
Ele forçando um dos muitos sorrisos que teria que dar naquela tarde, seguiu em direção aos convidados. Reconheceu alguns, estranhou a presença de outros e assim aquela reunião seguiu.
Nada de extraordinário aconteceu durante as primeiras perguntas dos jornalistas que hora fotografavam, hora anotavam o que ele dizia ou gravavam em seus “blocos de notas super modernos”.
Como prometido, Marcos apresentou-lhe algumas mulheres, mas nenhuma te chamou a atenção. Eram ou feias e “intelectualóides” demais ou bonitas e burras demais. Preferiu a companhia do pó que de hora em hora ia visitar no camarim.
Tudo corria bem. O vinho veio em hora excelente, a música também agradava a todos. Marcos era uma alegoria a parte naquilo tudo, circulando e falando sem parar com as pessoas. Era realmente uma pessoa bem relacionada.
Chegava a hora da distribuição gratuita de exemplares que eles chamam de seção de autógrafos.
Ao sentar percebeu a presença de duas mulheres entrando na livraria. Sua mãe e sua irmã acabavam de chegar.
Sentiu um embrulho no estômago e uma vontade de por ambas porta a fora. Mas a felicidade de Marcos era tanta que ele resolveu acalmar-se e seguir adiante, até mesmo para saber que diabos elas faziam ali.
Aproximaram-se sob os olhares de repúdio dele, cumprimentaram com um breve aceno e permaneceram por perto, esperando ele acabar com os poucos interessados em receber a sua assinatura no livro.
Logo ele foi ao encontro delas.
-Que fazem aqui?
-Viemos ver como você esta mano!
-Certo, estou bem. Agora vocês já podem ir!
-Não sem antes comprar um dos seus livros meu filho querido! A mãe falou enquanto ajustava a gola da sua blusa meio torta.
-Não será preciso! Marcos, por favor, dois exemplares para minhas distintas parentes! Ele disse quando esse passou por perto oportunamente, como quem quer ouvir o que se fala numa conversa reservada!
-Ah meu filho, assim você não irá fazer fortuna!
-Nasci para ser pobre. Tenho alma de pobre como você sempre me disse mamãe!
Frase carregada de sarcasmo e raiva.
-Bom, ao menos agora você pode ganhar “algum” fazendo o que gosta, bebendo e escrevendo!
-Não, minha parte nas vendas eu doarei para uma ONG. A “associação de protetores de crianças abandonadas por mães gananciosas e negligentes”
-Por favor, vocês dois. Parem com isso! Será que eu terei que pedir Santuário? Disse a irmã querendo apaziguar o clima tenso entre mãe e filho!
-Eu te disse que não seriamos bem vindas! Disse a mãe enquanto recebia os livros entregues por Marcos!
-Olha, iremos visitar o túmulo do papai na sexta. Gostaríamos que fosse!
-Farei o possível!
-E eu prometo ler seu livro meu querido filho. Mas antes de sair, queria provar desse vinho que servem aqui! E erguendo a mão, apanhou um cálice que estava sobre uma bandeja.
-Mamãe, não passará da segunda página. Há coisas ai que fariam a senhora vomitar. Mas, a capa é bonita. Terá um belo peso de papel para suas duplicatas no escritório.
-Lindo!
Respondeu a matriarca após um gole do vinho.
Sua irmã aproveitou o silêncio para iniciar uma conversa mais séria com ele.
-Olha, sei que nos odeia...
-Esta errada!
-Ta, mas não pode, ou não deve ao menos, fingir que não existimos. Anos tentando me reaproximar e você sempre fugindo de um encontro!
-Como vai seu filho?
-Esta bem?
-Dez anos ou mais?
-Treze!
-Ah sim, entendi! Ele cresceu e agora você precisa ocupar seu tempo com alguma coisa. Resolveu acabar com os fantasmas do passado para ter uma velhice mais tranqüila e sem insônias ou pesadelos!
-Diabos! Você não tem jeito. Sou sua irmã. Me preocupo com você...
-Não deveria!
-Tudo bem. Vou embora.
-Certo! Até mais! Ah sim. Abraços no Luquinha!
-O nome dele é Lucas Gabriel. Luquinha é o filho da lavadeira!
Sua irmã saiu às pressas puxando sua mãe que conversava alegremente com Marcos sobre o quanto o vestido da esposa do proprietário era feio e brega!
Retornou ao camarim. Preparou duas linhas generosas de pó e mandou tudo de uma vez para dentro. Sentou-se, abriu alguns botões da blusa e pegou outra cerveja.
Marcos deu por sua falta e seguiu até o camarim com o a intenção de acompanhá-lo nas trilhas brancas do pó.
Ao entrar foi logo dizendo:
-Sei que a presença das duas acabou com seu humor e antes que comece a me ofender, digo que entrarei mudo e sairei calado. Exceto por essas palavras!
-Na verdade Marcos, eu estava me sentindo muito só aqui. Não, me sinto só no mundo! Veja, existem muitas pessoas no mundo, muitas aqui lugar, mas eu me sinto sempre só!Você se importaria em me dar um abraço?
Marcos, espantado com a proposta, vira-se e chega a dar um passo em sua direção ao vê-lo com os braços abertos.
-Marcos, eu estava brincando! Sua bicha! E deu uma gargalhada longa enquanto seu amigo virava-se para a bandeja, irritado e descontente.
-Elas não chegam a estragar meu dia meu amigo. Me diz, seria estranho se eu não voltasse para lá!?
-Nada, já se foram quase todos e os que ainda estão ai, ou estão ou só querem ficar bêbados.
-Então eu devo partir?
-Não sem antes se despedir do Jorge e de sua esposa.
-Certo. Farei isso então!
Disse enquanto fechava os botões da blusa
Capítulo VI.
Era pouco mais de onze da manhã e ele acabava de acordar. Seu corpo moído, cabeça pesada, aquele gosto terrível na boca seca e fétida, dedos amarelados pela nicotina, camisa suada e empreguinada por fumaça, mãos trêmulas e olhos fotofóbicos, sintomas clássicos de uma bela noitada de porres. Partiu direto ao banheiro e ainda num estado de torpor mental recebia os flashs das lembranças da noite passada como uma descarga de lembranças furtivas. Lugares, pessoas, bebidas, músicas, palavras, frases, nomes, rostos... O vômito veio por conseqüência desse turbilhão de informações repentinas naquela mente semi-acordada. Precisava fazer um esforço enorme para se erguer. Vomitou mais duas ou três vezes e banhou-se tentando por em ordem os retalhos de memória que lhe viam, mas estava tudo muito fragmentado.
A água fria ajudou a recuperar o equilíbrio. Já não tremia tanto e nem sentia mais vertigens e ânsias de vômito, pensava até em ir comer alguma coisa para repor as energias que lhe escapavam a cada movimento.
Buscou a carteira no bolso da calça e verificou que ainda lhe sobrava algum dinheiro, mas teria que optar entre um bom café da manhã ou uma “boquinha” e uma carteira de cigarros, pois restavam poucos.
Lembrou-se de ter se despedido do dono da livraria e da sua digníssima esposa, de ter negado o convite para o jantar, de ter encontrado uma das jornalistas no “camarim” cheirando o restante da cocaína com Marcos que já apresentava um estado de euforia invejável, de ter trocado a roupa no pequeno banheiro do lugar, de ter saído pelos fundos, de ter caminhado para um boteco, de algumas cervejas bebidas e compartilhadas com desconhecidos, da verborragia causada pela droga, da conta paga, do táxi, do taxista engraçado, do velho bar onde costumava beber, das pessoas que lá encontrou, da velha parceira de cama e de noitadas, da tentativa frustrada de manter uma ereção depois de linhas e mais linhas de pó, das risadas da mulher, do empurrão dado, das palavras de ofensa e do choro dela, do segurança do motel, do retorno ao bar, dos cigarros perdidos, da volta para casa...
-Um suco de laranja bem gelado e dois pães com ovos!
-A noite foi boa ontem né?
-Assim que minha mente e meu corpo chegarem a um consenso, eu te respondo isso!
-Quer mais alguma coisa?
-Sim, um copo ou dois de água gelada!
-Um instante e já te trago!
Após comer e recuperar um pouco as forças ele retornou pra casa fumando e rindo de si mesmo. A cabeça doendo, as pernas pareciam mais pesadas, todos os seus órgãos internos pareciam brigar entre si, sentia-se pequeno, impotente, triste, mas sabia que isso era o sub-produto do uso da droga. Jurou mais uma vez que seria a última vez que cheiraria cocaína. Considerou a sua idade e sua noção de vida e achou incongruente esse tipo de comportamento e riu de tudo isso logo em seguida, pois sabia que já havia prometido isso anteriormente e que havia fracassado na sua promessa. Daria um tempo, ficaria longe dela por alguns meses. Talvez.
Suado, não pelo esforço, mas pelo calor, tomou outro banho quando chegou a casa e masturbou-se lembrando cenas de pura perversão com a mulher que na noite passada riu de sua impotência, mas que em outras ocasiões já te livrara a cara em épocas de intensa solidão. Acreditava ser a última vez que ela toparia sair com ele e então fazia uma homenagem solitária às antigas farras.
Ele estava introspectivo e resolveu usar de forma útil essa leve depressão para escrever alguma coisa, afinal, não adiantaria nada pedir perdão a Deus ou a quem quer que fosse por seus atos.
Mas nada de concreto saia da sua mente. As palavras não vinham com clareza, nem ordem, nem velocidade. Adormeceu sobre a escrivaninha novamente com um cigarro ainda aceso sobre o cinzeiro.
A tarde foi ao supermercado relativamente perto da sua casa para sacar algum do caixa eletrônico e comprar algo pra comer e beber
Dinheiro no bolso entrou no mercado. Passagem rápida pela seção de bebidas, vinhos e cervejas geladas, um pacote de massa, molho, almôndegas, temperos diversos e algumas outras coisas menores para a manutenção da higiene.
Em casa, ligou para Marcos que atendeu com voz de semimorto.
-E então meu amigo? Onde está aquela força e energia de ontem?
-Foda-se! Eu estou na merda. A noite foi uma desgraça!
-Fale por você!
-Diga o que quer!
-Convida-lo para jantar aqui. Comprei algumas garrafas de vinho e tal.
-Ta se sentindo sozinho poeta? Hahahahahah. Ta bom, eu passo ai!
-Traz aquele disco que eu gosto. Convida a sua amiga jornalista de ontem, mas deixa a cocaína pra outra ocasião!
-Com pó ou com pau, né? Hauuahauhauha. Com pau dessa vez!
-É, essa coisa ta acabando comigo!
-Nem me fale. Acordei hoje com uma sensação terrível de pré-morte!
-Bom, aqui a gente conversa sobre isso. Acha possível que ela venha?
-Acredito que sim. Ela fez alguns comentários ontem sobre seus dotes como homem. .
-Opa, Então ta, a gente se vê mais tarde!
-Até mais!
Bebeu algumas cervejas enquanto fumava, cantava e punha a casa em ordem. Odiava trabalhos domésticos e similares, mas achava demasiado irônico pagar uma faxineira. Logo ele um cara tão liberto e descolado, herdar esse costume ridículo dos burgueses e senhores feudais aliviado apenas pelo fato de doar uma mísera quantia em dinheiro para alguém limpar sua sujeira. Odiava esses pequenos detalhes do comportamento contemporâneo que por vezes passa despercebido aos olhos remelentos do resto das pessoas. Compradores compulsivos, estetas, ditadores de padrões, macacos amestrados, sociopatas, egopatas, falsos ricos, seguidores de moda. Odiava as conversas na sala do café na repartição. Deu até nomes para essas reuniões. Anorexia cultural e bulimia informativa. As pessoas não absorvem as informações recebidas. Acham que estão sempre muito bem informados com seus argumentos endossados pelo noticiário de domingo à noite e na segunda-feira põe tudo para fora num vômito coletivo daquilo que não foi devidamente digerido.
“-Você viu, deu até no Fantástico!”
E seus companheiros de trabalho eram sempre alvos de alfinetadas veementes quando por azar pediam a sua opinião sobre esse ou outro assunto. Não gostava daquele lugar. Poderia trabalhar ali a vida inteira sem reclamar desde que fosse isolado dos seus companheiros. Aqueles imbecis catequizados pelo senso comum, que castrados pelo julgo de uma sociedade hipócrita muito mais pareciam clones uns dos outros tamanha as semelhanças no pensar e no agir e não fosse às devidas diferenças físicas não haveria quem dissesse o contrário. As mulheres então, lhe tiravam do sério. Suas maquiagens e roupas e acessórios e perfumes e ornamentos e sapatos eram todos muito iguais.
Todos infelizes, tristes e mortos por dentro. Mas por fora são lindos e bem vistosos. Suas posses, seu dinheiro, seu status social, seus carros e casas no litoral, seus filhos formados, tudo isso servia como bengala de apoio para o grande aleijão emocional curado com bebedeiras e “tarjas pretas” diários. Tudo isso, toda essa doença social, toda essa mixórdia, essa realidade que poucos conseguem ver, lhe causava uma enxurrada de pensamentos e idéias que eram transcritos para seus contos e textos de forma crua sem esboços.
Mas agora não poderia fazê-lo. Tinha uma esponja ensaboada numa das mãos e uma panela engordurada na outra. E era preciso deixá-la cintilante para mais tarde ser suja de novo pelo molho que cobriria o macarrão com almôndegas do jantar. E a pia ainda estava cheia de pratos e copos implorando para serem limpos.
Capítulo VII.
A noite chegou e ele nem percebeu. Marcos bateu a sua porta em companhia de duas pessoas. A jornalista muito bem vestida num vestido com ares de “Woodstock never die”, porém, bastante sexy e ousado e um rapaz de aparência moderninha com um desses bonés de tecido quadriculado que no passado faziam a alegria apenas de velhinhos em natais e aniversários, mas que hoje servem de adereços para a juventude de sexualidade duvidosa.
Eles entraram e foram devidamente apresentados. Ele pode sentir o perfume que dela emanava. Seus seios fartos quase pulavam para fora do vestido e quando sentada, viam-se livres sob o tecido, denunciando a ausência de sutiã. Foram então para a cozinha onde um vinho já aberto servia de passatempo até o molho ficar pronto.
Ouviam o disco que Marcos trouxe, todos fumando, menos Marcos que dizia ter verdadeiro asco a cigarros e fazia questão de demonstrar isso com o abanar inquieto das mãos quando a fumaça ia a seu encontro.
-A capacidade de atração da fumaça está diretamente ligada ao nível de aversão a cigarros que você tem! Lei de Murph n° 108. Disse a jornalista, que arrancou risos dos outros dois.
-Vai à merda! Quer morrer de câncer, tudo bem, mas não peça minha companhia!
O rapaz bebia muito rápido, talvez pelo constrangimento de ser companhia de alguém tão afetado, mas ninguém estava muito ai para isso.
Os olhos do anfitrião ficavam divididos entre o molho e as coxas e busto da convidada que por sua vez não disfarçava - e a bem da verdade nem tinha motivos para isso - seu interesse por aquele homem. O vinho havia desfeito toda e qualquer timidez e invariavelmente se discutia sexo e sexualidade naquela cozinha aromatizada pelos temperos e incrementos do jantar.
Ela estava muito interessada nos dons culinários do escritor e fazia varias perguntas. Ele demonstrava muito interesse em suas afirmações sobre sexo. Tudo muito bem, os disfarces para as únicas intenções que havia ali. Sexo. Ele queria mesmo era jogar o molho no ralo e se entregar à luxúria daquelas pernas torneadas, mas era preciso todo aquele jogo de conquista clássico e enfadonho como se fossem animais silvestres onde o macho precisa demonstrar de alguma forma ser o merecedor dos prazeres ofertados pela fêmea que mal se contem de desejo.
-Posso acender um baseado? Perguntou o rapaz.
-Deve, disse a jornalista que logo complementou com um: “Se o dono da casa permitir!” Tentando suavizar o ímpeto da frase anterior.
-Pode sim. Se Marcos não se incomodar!
-Prefiro o cheiro da maconha a esse terrível fedor de merda queimada desses cigarros nojentos.
O baseado foi aceso antes mesmo de Marcos terminar a frase e ficaram ali fumando e conversando enquanto o macarrão era cozido.
Ele ficou perto dela na mesa, e ousou olhar novamente sem disfarce para seus seios proeminentes e seguiu descendo as vistas até o belíssimo par de pernas que saiam do final daquele vestido.
Ao perceber isso, ela numa atitude digna de uma mulher que sabe bem o que quer, abriu levemente as pernas deixando escapar um pouco mais das coxas e curvou-se para frente olhando-o nos olhos.
-Admirado com o meu vestido?
-Na verdade, estou tentando saber o quanto de algodão tem nesse tecido, mas sou muito melhor com o tato do que com a visão nesses casos.
Ela riu e retornou a posição inicial para alcançar o beque passado pelo companheiro de Marcos.
A segunda garrafa de vinho foi aberta durante o jantar. Comeram todos fazendo louvores ao sabor do molho. Os risos e as conversas estavam cada vez mais soltos. Falava-se de tudo. Sem interligações necessárias, dizia-se dos comportamentos contemporâneos, das músicas de outras épocas, da putrefeita nova geração, das contingências políticas e religiosas, da cena “pós-isso”, do contexto “pré-aquilo”, das caraminholas Freudianas, dos labirintos Nietzcheanos, da tolice mística Neo Hippie, da New Blank Generation, dos punks de playgrounds. Foi verdadeiramente uma sangria verborrágica sem sentido aparente.
Marcos anunciou a partida dele e do companheiro para no máximo meia hora. A jornalista disse que sairia com eles.
-Achei que fossemos beber a terceira garrafa de vinho e aproveitando a ocasião tentar conversar um pouco mais!
-Acontece que não quero ser impertinente.
-Em ficar? Seria um prazer! Se é que você me entende!
-Você é sempre assim? Tão contundente nas suas cantadas? Você me deixa sem graça com isso!
-Não são cantadas. Nem sei fazer isso. Mas não posso mais disfarçar. Nem o vinho nem meus desejos permitem isso. E pelo que sei você só falou que iria embora para ouvir algo do gênero!
-Você pode ter razão. E pode está errado também!
-Pois é. Se você prefere ver isso como um jogo, eu posso estar blefando também. Mas aposto todas as minhas fichas que você não sairá por essa porta antes de me deixar vê-la sem esse belíssimo vestido.
-Escuta... Não sei bem se quero ficar. Nem sei se você verá alem do que já viu.
Acontece que algumas mulheres não conseguem disfarçar muito bem seus desejos e agregando a isso vinho e cannabis sativa a coisa fica mais difícil. Era obvio que só faltava a palavra correta, a frase de efeito para que essa frágil muralha fosse ao chão e ela permitisse uma aproximação maior.
Ele não suportava mais essa situação. E não contendo o impulso num encontrão no corredor que levava ao banheiro, agarrou-a pela cintura e prendeu-a contra a parede!
-Ei, me solta!
-O que vai fazer? Gritar? Esconder seu desejo? Talvez seja isso. Você tem tara em ser vítima, caça, prefere correr do lobo que a segue com fome a admitir que também deseja ser engolida.
-Você é muito prepotente! Solte-me!
-Não, seus olhos me dizem que você quer isso tanto quanto eu. E caso esteja errado, saia agora, pois vou solta-la.
E assim o fez, mas ela não se moveu um centímetro. Então ele segurou sua nuca e com força enfiou a língua em sua boca enquanto sua outra mão percorreu suas costas até encontra sua bunda grande e macia. Puxou-a de encontro ao seu corpo e fez com que ela sentisse no baixo ventre o efeito disso. Ela sentiu seu pau rígido e deteve-se do ataque das mãos inquietas que já avançavam contra a alça do seu vestido.
-Vamos voltar à sala!
-A casa não é tão grande, mas, estamos muito mais próximos do meu quarto do que da sala. Mudemos o destino, essa é minha proposta!
Sorriu volupstuosamente.
-Mas Marcos...
-Ele sabe muito bem o que esta acontecendo e sairá em seguida.
Beijou-a novamente e ela aceitou o convite.
No quarto, a portas fechadas ela não evitou que o vestido fosse ao chão permitindo que seus seios ficassem ao alcance da boca ávida e da língua desgovernada a percorrer os mamilos com força enquanto sua mão puxava a camisa dele para cima.
Suas pernas fraquejaram quando ele puxou seu cabelo a fim de que ela curvasse o corpo para frente, deixando o abdômen livre para mordidas enquanto ficava de joelhos para despi-la da única peça do vestiário que ainda resistia. Agarrando as duas pernas dela na altura das coxas, girou-a no ar arremessando-a na cama sem machucar nem assustar. Tirou a calça e cueca e tênis e meia numa velocidade incrível enquanto ela olhava aquele pau intumescido vindo em sua direção. Sentiu a espinha gelar e fechou os olhos enquanto ele puxava a calcinha e observava atentamente a sua púbis com uma tênue cobertura de pelos que ainda nasciam.
Esse é um dos melhores momentos da vida de um homem. Quando ele retira pela primeira vez a calcinha de uma mulher. É algo que realmente faz a vida valer à pena e justifica todos os livros lidos, músicas ouvidas, brigas na escola, dias e noites vividos. Enfiou-se entre duas pernas e prendeu com o peso do seu corpo pondo as mãos nos seus ombros. Golpeou numa sé estocada até o fim e ela contorceu-se e mordendo os lábios soltou um gemido rouco. Ouviram a porta da frente ser fechada.
Ele continuou ali a penetrar aquela coisa magnífica enquanto lambia seus seios e mordia seu pescoço.
Ela tomando iniciativa, empurrou ele para trás sem perder a penetração e sentou-se sobre as coxas dele. Fazia movimentos leves no início, mas foi mudando o ritmo e logo quase saltava sobre o pou duro que atingia profundamente seu interior. Fizeram tudo muito intenso, com uma voracidade quase animal. Ele adorou tê-la de quatro e ver aquela bunda sendo castigada pelos tapas e apertões. Adorou o modo como ela o chupou, sem aquela coisa irritante das mulheres que fazem com certo nojo ou vergonha, e sua forma despudorada de revelar toda a intensidade dos seus orgasmos.
-Meus cigarros ficaram lá na sala. Vou pegar um e trago o vinho também.
-Certo, quero um copo também. Ela disse levantando-se e indo de encontro às suas roupas.
-Já vai se vestir? Tão cedo?
-Não sei, estou me sentindo estranha. Se eu ainda tivesse alguma, diria que estou com vergonha do que acabou de acontecer.
-Bobagem, a gente bebe o vinho e tudo isso passa certo?
Amanheceram juntos, cada um de um lado da cama. Ambos estavam bastante cansados, aquela preguiça boa que sucede uma noite de sexo reinava nos seus corpos. Um banho, mais algumas peripécias sob o chuveiro, um café na lanchonete, alguns cigarros enquanto caminhavam até o ponto de ônibus e enquanto esse não chegava e uma despedida casta com um leve abraço e beijos nas faces como bons amigos que acabavam de se tornar.
Retornou para casa a fim de aproveitar bem aquela manhã. Dormiu até o início da tarde.
Capítulo VIII
O relógio marcava 6:30 da manhã e o despertador começou a bramir aquele som que para ele significava o prelúdio de mais um dia estafante e cansativo no trabalho.Mecanicamente as suas obrigações matinais foram executadas. Cigarro, sanitário, chuveiro, sabonete, xampu, toalha, creme de barbear, aparelho de barbear, escova, cigarro, roupas, sapatos, água, cigarro, ponto de ônibus, cumprimentos, moedas...Entrou na repartição com a mesma cara que faz desde que foi convocado. Saudou os colegas com a educação inerente a sua personalidade, dirigiu-se à sua mesa, pôs os papeis em ordem de prioridade, ligou seu computador, e seguiu o dia como se nada pudesse interromper seu mau humor cotidiano.Porém notou algo estranho nos olhares dos companheiros. Havia um sorriso preso, uma piada guardada. Ele sentia isso pelos corredores e em todos que ali estavam presentes.Então o segredo foi revelado. -Tem algo que o senhor Jarbas, aquele do limite consignatório, deixou aqui para você!Disse Pablo sem conseguir segurar o riso.-É? O que é?-Veja com seus próprios olhos. Está na copa!Ele levantou-se apreensivo. Estava curioso em saber do que se tratava, mas começava a irritar-se com os risos que ouvia dos companheiros que já não disfarçavam e que soavam como uma vingança branda. -Eu não vou levar isso comigo! Ele gritou rindo e espantado.Estava ali, com as pernas amarradas uma galinha, gorda e suja de merda.Todos riram. da copeira ao mais alto cargo da repartição. -Mas que diabos esse homem tem na cabeça pra me presentear com uma galinha! Ainda que fosse abatida e congelada, mas que porra eu farei com uma galinha viva?-Se o senhor quiser, eu mato e preparo para o senhor! Disse a copeira Zuleide.-Sim Zu, faça isso. E eu te pago pelo serviço. Alias, fique com ela e faça um almoço no domingo. Prometo que irei te visitar! Riram todos.-Ele ficou feliz por ter conseguido o aumento na margem de consignação. Segundo ele era para pedir um empréstimo bancário e financiar as melhorias da sua granja. Disse Pablo.-E uma galinha era tudo que ele poderia me dar? Eu ficaria contente com uma dúzia de ovos, seu escroto!-Hei, eu não tenho culpa. Fiquei tão surpreso quanto você. Mas ele fez questão de deixar isso aqui. “Entregue a aquele moço que me atendeu na primeira vez” foi o que ele disse. Não sou de negar favores a pessoas de idade. O caso da galinha causou certo alvoroço no lugar e todos riram e aos poucos voltavam as suas posições iniciais. Cada um dos seus companheiros de trabalho desempenhou seu papel conforme o costume. Uns sérios e compenetrados, outros dispersos em devaneios ou conversas paralelas, um café, um cigarro nos fundos com Dona Zu, papéis, planilhas, carimbos, telefonemas, memorandos, anotações, e-mails, outro café, outro cigarro, almoço no restaurante próximo, outro cigarro, e a volta suada ao posto de trabalho e toda a mesmice infértil daquele lugar até o badalar das 18:00 H.As conversas atordoantes das mulheres no ponto de ônibus, a demora, a certeza da lotação e da jornada em pé, o fez partir caminhando para casa. Não mais que cinco quilômetros, tempo para pensar, espaço para fumar, pessoas para admirar ou criticar, segui a passos lentos cantarolando em silêncio uma música leve.Pensou bastante sobre seu livro, sobre sua família, sobre parar de fumar, parar de beber, reconsiderou a possibilidade de procurar Cristiane para uma conversa franca e definitiva,pensou em Seo Jarbas e no ato louvável de presenteá-lo com uma galinha, fez alguns planos para o dinheiro que ainda restava no banco, fez algumas contas com os haveres da venda do livro, tropeçou na calçada desnivelada, abriu o botão da blusa, pôs a mão no bolso direito, cuspiu, comprou mais cigarros, alugou um vídeo, abriu a porta, fechou a porta, tirou a blusa, foi à cozinha, fumou, lavou as panelas, pratos e copos, preparou algo pra comer, banhou-se, comeu,viu o vídeo, fumou,masturbou-se, dormiu.Teve o sono perturbado por um pesadelo. Acordou assustado, catou os cigarros, foi à cozinha fumando, bebeu água, depois passou um café, escreveu sobre o pesadelo:
“Vem me visitar em algumas noites uma estranha criatura de aspecto humanóide e de radiante luminosidade. Vem de encontro a mim, mas sequer se aproxima. De longe te odeio e admiro, busco e não alcanço. Seria um reflexo do que sou? Ou o espelho reflete o inverso?Sou lama e ele água pura. Trevas e ele luz. Ou sou luz e cego não vejo?Quem me cega?Quem me guia? Tropeçar, eis meu destino. Isso se não errar o caminho e me perder. Mas cego não sou. Vejo. Vejo o caminho que sigo. Vidente não. Não sei onde posso chegar. Mas onde quero ir, escolhi na esquina passada. Na próxima posso desviar o meu caminho. Alterá-lo caso queira. Escolho os atalhos mais longos...”
O sono impediu de completar o restante e mais um dos seus escritos foi parar na gaveta de coisas inacabadas. Apagou o cigarro, viu no vermelho do despertador 4:40 am. Dormiu.