28 Agosto 2006

Desabafo

Vai menino bobo, acorda e apressa seu passo.O tempo corre sem respeitar a sua vontade, invariavelmente.Levanta, esquece o barulho do despertador, seu primeiro aborrecimento cotidiano, outros piores virão e você sabe bem disso.
Tente não entristecer, mantenha a cabeça erguida e procure ignorar quando os primeiros sorrisos cruzarem seus caminhos.Sabes que esses são tão fingidos quanto os seus, se é que ainda sorri.Anestesiado pela obrigatoriedade dos seus compromissos cinicamente criados com essa finalidade, siga indiferente aos seus reais desejos, aos seus instintos.Deixe que esses se aglomerem em montes, ordenados pelos seus surtos de serenidade. Eduque lentamente a criança rebelde que há em você nessa surra homeopática. Logo ela estará tão confinada dentro do quarto do castigo que simplesmente não vai querer olhar para o lado de fora, aprenderá a divertir-se no escuro e frio aposento.
Vai menino, mente para aqueles que mentem para você.Nunca te disseram que é feio ser honesto?Que o erro é agir conforme a sua vontade?
Não pode mais brincar na gangorra da vida, nem mesmo há gangorra. A ferrugem já devorou. Contente-se com o carrossel no seu eterno movimento repetitivo. Veja sempre as mesmas coisas, ouça sempre a mesma musica, sinta sempre a mesma fugaz alegria e nem pense em trocar de cavalo, estão todos ocupados.
Vai menino besta. A vida lhe roubou a coragem, o gosto pelo desafio, a causa de suas cicatrizes que hoje você exibe como medalhas. As honras de sua traquinagem. Acorda menino, lá vem o ônibus, apaga esse cigarro e sobe. Diga mecanicamente as mesmas saudações. Sinta o mesmo asco por estar muito feliz em brincar no carrossel, pois pior seria se não estivesse ai, pelo menos é o que dizem aqueles que te venderam o ingresso.
Menino mimado que chora quando a pipoca acaba.Troque mais algumas de suas verdades bem criadas pela vivência neste mundo por um pacote maior da próxima vez.Enxugue as lagrimas, engula o choro, não vê que todos sorriem? Aqui não há lugar para reclamações, estão todos ocupados demais fingindo ser felizes pra te dar atenção.

1 comentários:

Erika disse...

meu lindo poeta do cotidiano num desabafo contido, dos que tem ciência do que vivem e ainda seguem nessa caminhada...até quando? Te amo!