A esquina, ou a gratificante opção da alienação...
A alguns passos apenas ele hesitava...repensava seus erros e ao mesmo tempo tentava vislumbrar o que haveria além daquele cruzamento comum...
Ao vagar sem rumo por um bairro dantes não visitado em sua cidade natal, algum tipo de medo com raízes obscuras o obsedava e paralisava, ou melhor, fazia com que cada passo seu fosse como câmera lenta de algum pesadelo repetitivo quando por vezes tentava fugir de um monstro qualquer que o perseguia na infância...
Chega das vazias e infindas viagens internas que nunca lhe trouxera nenhuma reposta consistente!-pragueja baixinho contra o retorno intruso de coisas das quais já desistira há tempos e retorna aborrecido ao seu dilema atual.
A esquina o fascinava e o repelia e o fascínio provinha justamente da repulsa: que asco pitoresco! -divertia-se sarcasticamente e ria de si mesmo.
Caminhava varrendo com o olhar os objetos que habitavam cada centímetro do chão sob os seus pés e estes pareciam fugir de suas pisadas como se atraídas por um imenso ímã magnético que protegia suas formas inanimadas daquela vida por se desmanchar a qualquer tempo, no curto caminho que o separava do cruzamento da nefasta encruzilhada...
Copos descartáveis, fragmentos em papel de uma embalagem qualquer, tocos de cigarros, banalidades que o assustavam a cada passo que mais o aproximava do instigante fim do quarteirão...distrai-se com uma idéia tola paradoxal que mais uma vez o faz troçar de si mesmo...pensa na raridade dos tocos de cigarro pelo chão, parece-lhe que os poucos fumantes que restaram são os cidadãos de consciência ecológica - e gargalha insosso até cessar o riso falso, como a tosse seca de um tísico.
Aproxima-se da esquina, ergue a fronte, estaca, nem pensa em mais nada, recua, dá meia volta sobre si mesmo e segue em frente reencontrando sua paz.
31 Outubro 2006
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