Quinze minutos, só lhe restavam quinze minutos.Precisava correr, apressar-se. Malditos transeuntes, lerdos, calmos, será que não entendem sua pressa?Precisava ele correr para demonstrar toda a sua aflição?
Correu então, trombou com inúmeros imbecis no trajeto.Mais uma vez olhou o relógio, treze minutos, diabos!
Sinal vermelho, carros passando em velocidade fatal para um ser vivo.Ágil e enlouquecido fez seu zig-zag.Xingamentos, camisa suada, respiração ofegante, dez minutos.
Sua meta cada vez mais perto, daria tempo? Se ele fosse mais rápido sim.E desprezando o cansaço muscular aumentou o ritimo.Sentia sua pulsação em suas têmporas, seu coração parecia querer sair da caixa torácica.
Cinco minutos e tudo em seu caminho era ignorado. Lama, merda de cachorro, crianças, sacos plásticos, sacolas, velhas...
Chegou.Dois minutos, tempo para se recompor. Acalmou-se.
Respirou fundo ate normalizar seu cardiovascular.Enxugou seu rosto com a manga da camisa.
Longe ela apareceu.Linda, impecável, imutável beleza, sorriso aberto, cabelos ao vento, braços em movimentos alegóricos.
Esperou ate que ela passasse ao seu lado, mais alguns instantes, suspirou como um enológo o seu perfume.Sentiu ele preencher seu pulmão cansado.Sua alma alegrou-se.Bastava.
Sorriu.
Dever cumprido.
05 Abril 2006
Da Serie

Psicologia de um Vencido
Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.
Profundíssimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.
Já o verme - este operário das ruínas -
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,
Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!
Augusto dos Anjos.
01 Abril 2006
Entendeu?
Não sei se isso acontece com o resto do mundo, mas toda vez que alguém termina uma frase com “ ...entendeu?” eu fico com duas idéias fixas:
1ª- Ele, ciente de sua péssima articulação verbal, faz um mea culpa.
2ª- Ele me julga um perfeito idiota.
1ª- Ele, ciente de sua péssima articulação verbal, faz um mea culpa.
2ª- Ele me julga um perfeito idiota.
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