27 Novembro 2007

Sorria! Você está sendo atordoado!

Via-se cercado por idiotas. O suor lhe caia da testa, escorria pelas sobrancelhas e findava por chegar aos seus olhos marejados pelo calor e pela poeira. O barulho do centro da cidade é infernal durante essas horas. Boca ressecada pela fumaça do cigarro que sempre empunhava em suas jornadas. Vozes e frases desconexas lhe seguiam como sombras e por mais que tentasse ignorar, o astro rei impunha seus castigos de forma tão intensa que mesmo o vento que lhe batia a cara era terrivelmente quente.
Seu sapato apertava o calo no dedo mínimo do pé esquerdo, sua cueca friccionava sua virilha, suas axilas estavam encharcadas de um suor ainda recente. A camisa grudava nas costas. O vendedor de Dvd era feio como um demônio. Os transeuntes sempre andavam mais lento do que o necessário, quando não paravam em sua frente.
O centro da cidade é um caldeirão de gente nesses dias. Um enorme monte de cabeças, troncos, membros e perfumes baratos espalhados por todos os cantos. As calçadas esburacadas, os carros refletindo a luz solar, as motos com seus barulhos, os apitos, as músicas, os anúncios, o Sol, uma mixórdia de desagravos. Impossível manter-se são.

Apressou o passo, jogou o cigarro no chão, esbravejou , cuspiu, limpou o rosto, procurou as raras sombras, cantarolou alguma coisa para manter o raciocínio em ordem.
Impossível!
A ira, o calor, a fumaça de ônibus, aquelas vozes, aquela criança catarrenta choramingando e sendo arrastada pela mãe imundamente vestida por trapos, o cão sarnento, a música idiota de um carro idiota dirigido por um idiota, filho de um idiota qualquer que lhe dá dinheiro para que gaste como um idiota e honre a tradição da família idiota, o mendigo de mão estendida, a louca com seus movimentos repetitivos de andar cambaleante e de boca murcha e coberta por uma repelente espuma branca de saliva acumulada, o fedor do açougue e seus funcionários fétidos e o sangue putrefeito na sarjeta frente a eles, o caos do meio-dia, a correria da velha gorda e doente para alcançar o ônibus que lançava mais fumaça negra no ar em sua arrancada barulhenta, a sirene atordoante das ambulâncias que sempre correm muito, mas sempre chegam atrasadas demais...
...
-Você soube?
-De que?
-Aquele rapaz, ficou doido!
-Que rapaz?
-Aquele assim e assado, que era filho de Fulano e morava no raio que os parta!
-Sério?
-Sim, pior que sim!
-Menino tão bom!
-É, mas há quem diga que foram as drogas!

1 comentários:

Aion Perrone disse...

Real como a vida.

"se vou a cidade, o campo ou � praia
pouco importa. a pris�o vai
tamb�m."

n�o somos felizes, mas amamos a vida,curioso isso n�o?
Ando me identificando muito com algumas coisas que voc� escreve...