30 Novembro 2007

To Lady Stardust!

Essa ânsia me toma de assalto o raciocínio
Me rouba a concentração
Me perturba o parco juízo
Essa vontade de querer
Esse querer descabido e imenso
Vontade de contato justo
De proximidade milimétrica
De estar perto,
Perto não.
Unido, mesclado, fundido.
“À frio, a ferro e fogo, em carne viva”
E ai o mundo, o resto do mundo, o universo e suas infinitas galáxias.
Nada além de coadjuvantes
Fariam o seu papel.
O vento contente por tocar nossos rostos uivaria canções alegres
A chuva sem temer, cairia do mais alto céu, só para por contentamento.
Molhar nossos corpos
E tudo seria nosso.
Nada de ruas. Seriam nossas ruas
Nada de flores. Seriam nossas flores
Nada de jardins. Nossos jardins
De grama acariciada por nossos pés ao serem pisoteadas em nossas danças.
E os pássaros entoariam melodias de frenesi constante
Numa sinfonia sem fim. E a noite teria lua, sempre cheia.
E estrelas em dobro e um céu ainda mais escuro para ser enfeitado pelo brilho delas.

Não, é preciso parar. Sempre há um fim. Uma pausa, uma lacuna.
Isso está em mim. Está em minhas fantasias. Em meus pensamentos organizados e engessados em palavras. Não refletem a verdade.
A imutável realidade crua, nua e de vísceras expostas a quem quiser ver.
É preciso parar. Bater de cara contra a parede imensa da impossibilidade.
Impossível, inviável, inatingível expectativa.
A me corroer a paciência, a calma e o estado normal das faculdades mentais.
Estaria ficando louco? Mas já não sou?
Se quando me deixei levar pelo disparato, de desejar tudo isso, já assinava meu atestado de insanidade, o que temer?
Temer não! Temer nada! Desejar sim! Querer tudo! Querer não mata nem fere ninguém, a não ser a quem quer!
Quero sim, tudo. Tudo o que não é você, que vá às favas!
Você é o tudo, meu tudo. Minha? Não. Ainda e talvez nunca.
E talvez sim e quem sabe um dia!
E quem souber que me conte. Tire-me a tormenta dessa incerteza. Ou talvez não. Prefiro não saber.
Ah, diabos! Que mil raios partam esse sentido vago de razão!
Razão. Consciência. Justiça! É justo que seja assim. Não é aprazível, mas justo!
A razão me toma pela mão e me conduz por um caminho que eu reluto em seguir como criança frente a uma injeção!
Choro, esperneio, mas ela me puxa!
Há um outro caminho muito mais alegre. E é lá que eu quero correr ao seu encontro.
É lá que eu sei que você estará. Sei? Estará a minha espera?
Esperaria esse tempo?
Não cabem perguntas. É meu devaneio. Minha fantasia. Você só entra aqui da forma que eu desejo e eu desejo que esteja. E que juntos, unidos, fundidos, espanquemos a razão até sua morte. E riamos a correr pelas nossas ruas, nossos jardins, nossos caminhos, nosso mundo!

27 Novembro 2007

Sorria! Você está sendo atordoado!

Via-se cercado por idiotas. O suor lhe caia da testa, escorria pelas sobrancelhas e findava por chegar aos seus olhos marejados pelo calor e pela poeira. O barulho do centro da cidade é infernal durante essas horas. Boca ressecada pela fumaça do cigarro que sempre empunhava em suas jornadas. Vozes e frases desconexas lhe seguiam como sombras e por mais que tentasse ignorar, o astro rei impunha seus castigos de forma tão intensa que mesmo o vento que lhe batia a cara era terrivelmente quente.
Seu sapato apertava o calo no dedo mínimo do pé esquerdo, sua cueca friccionava sua virilha, suas axilas estavam encharcadas de um suor ainda recente. A camisa grudava nas costas. O vendedor de Dvd era feio como um demônio. Os transeuntes sempre andavam mais lento do que o necessário, quando não paravam em sua frente.
O centro da cidade é um caldeirão de gente nesses dias. Um enorme monte de cabeças, troncos, membros e perfumes baratos espalhados por todos os cantos. As calçadas esburacadas, os carros refletindo a luz solar, as motos com seus barulhos, os apitos, as músicas, os anúncios, o Sol, uma mixórdia de desagravos. Impossível manter-se são.

Apressou o passo, jogou o cigarro no chão, esbravejou , cuspiu, limpou o rosto, procurou as raras sombras, cantarolou alguma coisa para manter o raciocínio em ordem.
Impossível!
A ira, o calor, a fumaça de ônibus, aquelas vozes, aquela criança catarrenta choramingando e sendo arrastada pela mãe imundamente vestida por trapos, o cão sarnento, a música idiota de um carro idiota dirigido por um idiota, filho de um idiota qualquer que lhe dá dinheiro para que gaste como um idiota e honre a tradição da família idiota, o mendigo de mão estendida, a louca com seus movimentos repetitivos de andar cambaleante e de boca murcha e coberta por uma repelente espuma branca de saliva acumulada, o fedor do açougue e seus funcionários fétidos e o sangue putrefeito na sarjeta frente a eles, o caos do meio-dia, a correria da velha gorda e doente para alcançar o ônibus que lançava mais fumaça negra no ar em sua arrancada barulhenta, a sirene atordoante das ambulâncias que sempre correm muito, mas sempre chegam atrasadas demais...
...
-Você soube?
-De que?
-Aquele rapaz, ficou doido!
-Que rapaz?
-Aquele assim e assado, que era filho de Fulano e morava no raio que os parta!
-Sério?
-Sim, pior que sim!
-Menino tão bom!
-É, mas há quem diga que foram as drogas!

20 Novembro 2007

WAKE UP LIFE


Quando você dorme, com a cabeça repousada no meu peito.
E meu corpo recebe o toque de suas unhas bem de leve.
E minha boca ainda guarda seu gosto.
E seu cheiro inebria minha mente como um feitiço bom.
Eu sonho uma coisa boa.
E sinto você bem perto.
E beijo tua boca no sonho.
Eu, que já estou dormindo, juro que aquilo é real.
E quando você acorda ao meu lado.
E quando sorri com a boca cheia de preguiça e dengo.
E quando franze a testa e o canto dos olhos ainda sonolentos.
E quando se espreguiçando me abraça e diz: Bom dia!
Para mim, que acreditava já ter acordado, mais parece um sonho bom!