04 Abril 2008

Da série: Jabá!

Poesia Nordestina.
Do Irmão Davi.


I

Nenhuma poesia vale um calo de mão flamejante

Nem a estrela de Camões brilha mais que o olhar funesto de Maria

Nem mesmo a ópera mais triste soa tão densa quanto o estalar da enxada na pedra quente e fria

Nem mesmo o sol clareia como o lúgubre lampião de Tião

Nem mesmo um império reza mais que aquela triste canção

Que clama por Deus sem saber que é oração

Nem mesmo Deus sabe que esse povo existe!

E esse povo persiste, resiste, insiste em viver...

II

Tião passa meses à caça e quando, por vezes, Maria espreita à porta e ver chegar Tião Cambota

Logo se lhe desdobra a franzida testa

Ao ver entre os dedos de Tião a caça que lhe adia a morte mais um dia

Maria com força se porta

Pega-lhe a caça nas patas

Corre à cozinha em silêncio

Corta, corta, corta...

Luz, sol, é dia...

Tião sem falar corre à mesa e senta

Maria lhe entende o silêncio

Corre à mesa e bota

A caça é feia e fede...

Lá vai Tião mais um dia

Três semanas se passam

Agora a morte espreita Maria

Dois dias depois bate a porta

Tião sem nada, pejado...

Os olhos a saltarem molhados

Maria há dois dias jazia

Abutres o seu corpo comia

Tião com a mão os assusta

Chora sobre o corpo morto de Maria

Corre o olhar nas tetas comidas

Pega-lhe o corpo e debruça

Deita o rosto em suas costas

Esbarra a boca na orelha fria

O cheiro de sangue o excita

Tião de súbito levanta

Sente a boca ficar úmida

Cai e come o corpo de Maria.


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