Do Irmão Davi.
I
Nenhuma poesia vale um calo de mão flamejante
Nem a estrela de Camões brilha mais que o olhar funesto de Maria
Nem mesmo a ópera mais triste soa tão densa quanto o estalar da enxada na pedra quente e fria
Nem mesmo o sol clareia como o lúgubre lampião de Tião
Nem mesmo um império reza mais que aquela triste canção
Que clama por Deus sem saber que é oração
Nem mesmo Deus sabe que esse povo existe!
E esse povo persiste, resiste, insiste em viver...
Tião passa meses à caça e quando, por vezes, Maria espreita à porta e ver chegar Tião Cambota
Logo se lhe desdobra a franzida testa
Ao ver entre os dedos de Tião a caça que lhe adia a morte mais um dia
Maria com força se porta
Pega-lhe a caça nas patas
Corre à cozinha em silêncio
Corta, corta, corta...
Luz, sol, é dia...
Tião sem falar corre à mesa e senta
Maria lhe entende o silêncio
Corre à mesa e bota
A caça é feia e fede...
Lá vai Tião mais um dia
Três semanas se passam
Agora a morte espreita Maria
Dois dias depois bate a porta
Tião sem nada, pejado...
Os olhos a saltarem molhados
Maria há dois dias jazia
Abutres o seu corpo comia
Tião com a mão os assusta
Chora sobre o corpo morto de Maria
Corre o olhar nas tetas comidas
Pega-lhe o corpo e debruça
Deita o rosto em suas costas
Esbarra a boca na orelha fria
O cheiro de sangue o excita
Tião de súbito levanta
Sente a boca ficar úmida
Cai e come o corpo de Maria.
0 comentários:
Postar um comentário