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Ele estava ali, parado contemplando uma das inúmeras motocicletas que estavam no pátio do prédio onde trabalhava.
Vigilante noturno, sua profissão.
Ali ao seu redor, centenas de milhares de reais
Estava apenas admirando as formas contorcidas do plástico e do metal. Do painel e do acabamento em couro,talvez. Isso fascina qualquer um.
Caminhou até o seu ponto de trabalho. Um sofá, uma garrafa de café, uma TV.
Antigamente era chato. Os canais num dado horário, encerravam a sua programação, saudavam seus telespectadores e o que se via depois era um monte de chuviscos e um ruído. Hoje não, eles nunca descansam. Mostram filmes velhos, de enredo bobo.
Ele gosta disso. Gosta de filmes velhos e de enredo bobo, gosta do de Kung-Fu, Bang Bang, Carros, Guerra. E toda sorte de passatempos televisivos. Não gosta desses filmes novos em que o “ator” morre.
O “ator” nunca deve morrer!
Esses filmes novos são muito confusos. Ele gosta da coisa simples. Seu cérebro pouco trabalhado na infância escolar e massacrado durante a adolescência sofrida em casa não poderia ir além disso.Era pedir demais.
Passava a madrugada inteira vendo esses filmes. Seu trabalho ali é meramente fictício. Há um sistema de alarme, cercas eletrificadas ao redor do prédio, câmeras de vigilância, e na pior das hipóteses, o telefone da seguradora.
Ficar acordado nunca foi problema. Quando pequeno em casa, passava a noite em claro por medo das agressões repentinas do pai alcoólatra. Ele, seus irmãos e sua mãe submissa viviam em eterna vigilância quando o pai chegava a casa “daquele jeito”.
E agora ele pode até ver TV.
Ele ficava ali, vendo filmes, programas evangélicos (esses só durante o intervalo comercial da emissora que transmitia o filme), filmes pornográficos (e as vezes batinha uma punheta quando o filme te agradava) e todo tipo de movimento que do vitral da sua guarita pudesse alcançar.Carros em alta velocidade, turmas de volta de alguma festinha-balada como eles chamam agora-, pixadores, sacizeiros, maconheiros, bêbados, cães e etc.
A madrugada passa muito rápido. As vezes é movimentada, outras nem tanto. Ao amanhecer o sono vinha. Às 6:30 era hora de entregar as chaves ao pessoal da limpeza.
Dona Neide, coitada, sempre tinha cara de sono a essa hora da manhã e o máximo que se conseguia arrancar dela, ela algumas palavras tímidas e sonolentas.
Dava até um caldo. Tinha um corpo melhor que a sua esposa. Mulher de garra, mãe dos seus dois filhos.
Coletivo para casa. Dia de semana, quando o ônibus não atrasava, ainda dava tempo de encontrar os meninos no ponto, aguardando para ir à escola. Um beijo na testa de cada um deles. Um bom dia à mulher que te acompanha há 15 anos. Um café. Comer alguma coisa, e dormir até a tarde.