27 Fevereiro 2008

Da Série: Ela quem fez!

Eu sou os delírios do ar da capital, a xícara de expresso, o cigarro, as brumas ao nosso redor, a ojeriza sem causa do otário com causa, seguida de risadas duplas e maldosas, o amor do mais belo, os livros, o 'não saber falar bonito', o aprender a ser infame, o treinar o inconsciente, o resgatar da profundeza mental, as paredes, os lençóis denunciando a luxúria, as noites regadas a vodka e mais luxúria, as brigas, seguidas de roupas no chão, as mordidas, o contorno da sua boca, as lágrimas, as novas e velhas músicas, o velho engenho, o cheiro de talco, o ranço das pedras, as piadas e risadas infames, o almoço de domingo, o cheiro de preguiça, o sorriso contagiante, o beijo na nuca, o rasgar das unhas, o vermelho da boca e das manchas nas camisas, a malícia do toque, o sorriso safado, a cumplicidade das almas ao abraçar, o bater acelerado do coração ao ver, mais um laço e uma ira que se faz ao beijar. Entre nós a plenitude, o nosso "um par", o deslumbramento tem estágios cada vez maiores e mais salivantes. Nós dois e mais nada.



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25 Fevereiro 2008

O mundo inteiro acordar e a gente dormir!

Ele estava ali, parado contemplando uma das inúmeras motocicletas que estavam no pátio do prédio onde trabalhava.

Vigilante noturno, sua profissão.

Ali ao seu redor, centenas de milhares de reais em patrimônio. Para ele, um sonho distante. Nem mesmo a menos requintada, nem mesmo uma das que dizem ter preços populares estava ao alcance do seu pobre orçamento. Mas também, para que diabos ele iria querer uma moto? Nunca soube andar nem mesmo de bicicleta.

Estava apenas admirando as formas contorcidas do plástico e do metal. Do painel e do acabamento em couro,talvez. Isso fascina qualquer um.

Caminhou até o seu ponto de trabalho. Um sofá, uma garrafa de café, uma TV.

Antigamente era chato. Os canais num dado horário, encerravam a sua programação, saudavam seus telespectadores e o que se via depois era um monte de chuviscos e um ruído. Hoje não, eles nunca descansam. Mostram filmes velhos, de enredo bobo.

Ele gosta disso. Gosta de filmes velhos e de enredo bobo, gosta do de Kung-Fu, Bang Bang, Carros, Guerra. E toda sorte de passatempos televisivos. Não gosta desses filmes novos em que o “ator” morre.

O “ator” nunca deve morrer!

Esses filmes novos são muito confusos. Ele gosta da coisa simples. Seu cérebro pouco trabalhado na infância escolar e massacrado durante a adolescência sofrida em casa não poderia ir além disso.Era pedir demais.

Passava a madrugada inteira vendo esses filmes. Seu trabalho ali é meramente fictício. Há um sistema de alarme, cercas eletrificadas ao redor do prédio, câmeras de vigilância, e na pior das hipóteses, o telefone da seguradora.

Ficar acordado nunca foi problema. Quando pequeno em casa, passava a noite em claro por medo das agressões repentinas do pai alcoólatra. Ele, seus irmãos e sua mãe submissa viviam em eterna vigilância quando o pai chegava a casa “daquele jeito”.

E agora ele pode até ver TV.

Ele ficava ali, vendo filmes, programas evangélicos (esses só durante o intervalo comercial da emissora que transmitia o filme), filmes pornográficos (e as vezes batinha uma punheta quando o filme te agradava) e todo tipo de movimento que do vitral da sua guarita pudesse alcançar.Carros em alta velocidade, turmas de volta de alguma festinha-balada como eles chamam agora-, pixadores, sacizeiros, maconheiros, bêbados, cães e etc.

A madrugada passa muito rápido. As vezes é movimentada, outras nem tanto. Ao amanhecer o sono vinha. Às 6:30 era hora de entregar as chaves ao pessoal da limpeza.

Dona Neide, coitada, sempre tinha cara de sono a essa hora da manhã e o máximo que se conseguia arrancar dela, ela algumas palavras tímidas e sonolentas.

Dava até um caldo. Tinha um corpo melhor que a sua esposa. Mulher de garra, mãe dos seus dois filhos.

Coletivo para casa. Dia de semana, quando o ônibus não atrasava, ainda dava tempo de encontrar os meninos no ponto, aguardando para ir à escola. Um beijo na testa de cada um deles. Um bom dia à mulher que te acompanha há 15 anos. Um café. Comer alguma coisa, e dormir até a tarde.

20 Fevereiro 2008

Um grilo mais daquilo, um quilo menos disso...

Um pouco mais alto.
Um pouco mais lento.
Um pouco menos chato.
Um pouco menos nariz.

Um quilo mais gordo.
Um pouco menos magro.
Um pouco menos .
Um pouco mais.

Um pouco mais assim.
Um pouco menos assado.
Um pouco menos cru.
Um pouco mais retado.

Um pouco menos vil.
Um pouco mais voraz.
Um pouco menos disso.
Um pouco, pouco mais.

Um pouco, mas vivo.
Um pouco mais ameno.
Um pouco mais .
Mais ou menos.

Mais com menos, menos.
Menos com menos, mais.
Meninas, comendo menos.
Meninos, com um medo a mais.

Um pouco. Um pouco mais.
Há mais que um pouco .
Há menos que mais.
Mais um pouco. É mais.

15 Fevereiro 2008

Lamentações no fim da tarde.

Você me deu calor, mas hoje em dia sinto frio.
Você me trouxe vida, mas estou morta.
Como uma ave, ferida por uma pedra.
Atirada por um garoto travesso por pura maldade.

Caída no chão.
Esse mesmo chão que você inundou com suor.
Nas noites quentes de violentas luxúrias
Seu corpo marcou o meu.
E o meu nem mesmo treme.

Nada me trará de volta à vida.
Nem mesmo você com suas palavras doces
Nem a rouquidão do seu pecado vocalizado.
Isso não me encanta mais.

Nos restos dos lençóis, daqueles que eu não queimei.
Por pura fúria deixei seu nome escrito em lágrimas.
E no banheiro, onde sentada choraminguei sua dor.
Lavo todos os dias, minha mente, da sua imundice.

Meu corpo, que antes obedecia ao seu olhar.
Hoje, inerte apenas vegeta.
Caminha em direção ao nada.
Vazia. Oca. Como era antes de ti.